domingo, 25 de março de 2018

Pequeno dicionário para xingar sem perder a erudição

Pequeno dicionário para xingar sem perder a erudição




Gilmar Mendes e Luís BarrosoDireito de imagemAFP/EPA
Image captionSessão no STF foi interrompida após discussão entre ministros

Na última quarta-feira, uma discussão no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) entre os ministros Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes foi uma lição involuntária de como discutir e proferir ofensas (quase) sem perder a pompa.
"Me deixe de fora desse seu mau sentimento. Você é uma pessoa horrível", disse Barroso em reação a críticas feitas por Gilmar a supostas decisões incorretas suas. "O senhor é a mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia."
Barroso disse em seguida, já bastante exaltado: "Qual é a sua ideia, a sua proposta? Nenhuma, nenhuma, nenhuma. É bílis, ódio, mau sentimento, mal secreto, é uma coisa horrível". 
Poucos devem ter notado na hora, mas, como destacou o jornalista Vinicius Torres Freire, o termo "mal secreto", uma forma antiga de se referir à sífilis, é "um xingamento dos tempos da minha avó".
O que não faltam na língua portuguesa são formas de xingar com um verniz de erudição nas palavras disparadas contra o alvo da vez.
Você pode trocar estúpido por acéfalo, por exemplo. Se quiser xingar alguém de ladrão, pode dizer que é um amigo do alheio.
A quem é traiçoeiro, chame de insidioso. No lugar de morto de fome, que tal esfaimado? Na próxima vez que alguém não te der ouvidos, não hesite e grite: "Mouco!".

'Reverendíssima besta'

Luís Milanesi, autor de Dicionário Brasileiro de Insultos (2002, Ateliê Editorial), compilou esses e outros 3 mil termos em seu dicionário. Ele começou a fazer o livro por por acaso.
"Quando xingava as pessoas, fazia isso muitas vezes por escrito e buscava o significado no dicionário para ter certeza do que estava dizendo, porque a palavra escrita é permanente."
Entre suas expressões preferidas, está "reverendíssima besta", usada pelo escritor Mário de Andrade para insultar seus desafetos.
Milanesi também gosta de onagro (burro), mentecapto (louco, idiota) e sevandija (quem vive às custas dos outros).
Mas há um termo que ele deixou de usar depois de pesquisar melhor seu significado. "Nunca mais chamei alguém de babaca", conta. 
"Na sua origem, o termo designava o órgão sexual feminino, provavelmente uma variação de tabaca. Mas por que isso é negativo? Tem um preconceito embutido ao falar isso do qual as pessoas não se dão conta."

'Sauna para a alma'

O escritor português Sérgio Luís de Carvalho, autor de Dicionário de Insultos (2014, Planeta), buscou a origem de 600 termos do tipo em nosso idioma.
Ele conta, por exemplo, que aberrante (anormal), vem do latim aberratio e, entre os romanos, designava quem andava sem destino. A partir do século 19, passou a ser usado para designar algo raro e desagradável.
"Insultar é importante, porque é uma sauna para a alma. Traz um alívio", diz Carvalho. "Todos precisamos fazer isso de vez em quando. Se não faz, tem algum problema."
Mais recentemente, diz o escritor, o português falado em Portugal incorporou alguns insultos comuns no Brasil, um efeito colateral do sucesso das novelas brasileiras por lá.
"Há algumas décadas, nenhum português sabia o que significava cafajeste ou brega, por exemplo. Ao mesmo tempo, puto não é um insulto em Portugal, quer dizer 'rapaz'."
Ele dá ainda alguns outros exemplos a quem deseja ampliar o seu repertório de ofensas com alguns termos correntes além mar. 
"Em vez de xingar alguém de ladrão, pode dizer filibusteiro. Ou chamar um burocrata de manga-de-alpaca. Ou dizer que uma pessoa diabólica é mefistofélica."
"Insultar é uma arte. Há muitas formas de fazer isso. Há o jeito grosseiro, que usamos no trânsito e uma forma elegante, que costumava ser usada nos velhos parlamentos. É o insulto fino", diz Carvalho.
"No último século, esse jeito elegante deixou de ser usado no universo parlamentar, que caiu muito de nível."
Mas, como mostra a discussão entre Barroso e Mendes, segue em prática em alguns tribunais. 

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Insultos cultos de A a Z

Uma seleção de palavras para quando você precisar xingar alguém, mas não quiser descer do salto.

Duas pessoas discutindoDireito de imagemGETTY IMAGES

Abantesma: Assombração, figura que assusta, espectro. Pessoa cuja presença causa desconforto, repugnância. Vem do grego phántasma. 
Bonifrate: Boneco articulado e movido para representar cenas. Pessoa dócil que age comandada por outro. Fantoche. A origem do termo é nebulosa, mas parece que seja derivada do latim: bonus + frater - bom irmão.
Concupiscente: Pessoa que tem desejo irrefreável pelo gozo. Luxurioso, lascivo. Essa ânsia pode ser por bens materiais ou pela posse sexual. Ou por ambas simultaneamente. Um concupiscente é voraz, tarado. O conhecimento exato do termo, em alguns ambientes sociais, pode transformá-lo em elogio. A palavra é latina.
Dendroclasta: Destruidor de árvores, agressor da natureza. Do grego dendron - árvore - e klatos - quebrado.
Espurco: Sujo, sórdido, torpe, que vive na espurcícia. Vale para o indivíduo que aprecia a imundície e se apresenta imundo. Usa-se, ainda, para a pessoa moralmente suja. "Nasceu e cresceu num chiqueiro moral e é tão espurco quanto o meio onde vive."
Futre: Do francês froutre. Homem desprezível, vil. Pode, também, ser sinônimo de avarento.
Grasnador: Indivíduo que fala com voz desagradável, que grasna como o corvo ou o pato. 
Histrião: No antigo teatro romano o histrione era o comediante que representava farsas. Designa o sujeito ridículo, farsante, palhaço ou charlatão. "Foi eleito, mesmo sendo um histrião ou, talvez, por isso."
Intrujão: Se um sujeito que se aproxima de um grupo e finge participar de seus valores e atividades com o objetivo de enganar os seus membros e obter vantagem para si próprio está cometendo uma intrujice. "Quem iria desconfiar daquele intrujão golpista? Ele parecia o mais bonzinho de todos..."
Jacobeu: Nome dado ao partidário de uma seita fanática que apareceu em Portugal no século XVIII. Acabou designando um sujeito hipócrita, falso.
Liliputiano: Baixinho como os habitantes de Lilipute. Em As Viagens de Gulliver, o escritor inglês Jonathan Swift (1667-1745), descreve um país imaginário, Lilliput, onde tudo era muito pequeno, inclusive os seus habitantes. Aplica-se não apenas às pessoas de baixa estatura, mas aos que são moral e intelectualmente reduzidos.
Misólogo: O que tem aversão ao raciocínio, à lógica, à ciência. Do grego miséo - odiar + lógos - palavra, estudo.
Nóxio: Nocivo.
Obnubilado: O que tem o pensamento obscuro e lento. Obnubilare, em latim, é "cobrir como nuvem". Emprega-se no caso da incapacidade de enxergar com clareza. O obnubilado é o que está em campo escuro, sem a luminosidade necessária à visão.
Peralvilho: Indivíduo que se veste para estar elegante e só consegue ser ridículo. É o metido a elegante sem o ser. Janota, almofadinha.
Quebra-louças: Pessoa desastrada, que provoca confusão.
Réprobo: Perverso, malvado. Do latim, reprobu.
Soez: Vil, reles, ordinário.
Traga-mouros: Homem brutal, violento.
Usurário: Usura é palavra latina para juro de capital. O usurário é o que exige juros altos pelos empréstimos feitos a quem precisa de dinheiro. Agiota.
Valdevinos: Pode ser vagabundo, um esperto que vive à custa dos outros. Ou um doidivanas, amalucado. É derivado do nome próprio Balduíno ou Valdovinos, um cavalheiro que aparece nos romances de cavalaria que, em séculos passados, tornou-se popular. O personagem transformou-se em substantivo comum.
Xenômano: Que tem mania por tudo que vem do exterior. É o oposto do xenófobo que despreza o que é de fora. A xenomania leva o sujeito a gostar do ruim porque tem um rótulo estrangeiro e a menosprezar o melhor porque tem um rótulo com texto em sua própria língua.
Zoantropo: Pessoa perturbada mentalmente que se sente transformada em um animal. Vítima de zoantropia. Do grego zôon -ser vivo + ánthropos - ser humano.
Fonte: Dicionário Brasileiro de Insultos (2002, Ateliê Editorial)

segunda-feira, 19 de março de 2018

Histórias sobre o Hino Nacional

HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS
Santos registra um acréscimo ao Hino Nacional


A letra do Hino Nacional, assinada em 1909 por Joaquim Osório Duque Estrada (com base musical composta em 1831 por Francisco Manuel da Silva, a "Marcha Triunfal") e mantida no original manuscrito pela Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, não tem essas estrofes, e são raros os outros registros sobre o fato, como o da santista Ana Arcanjo, que foi membro da Cruz Vermelha e participou da Revolução Constitucionalista de 1932. Pessoas que a conheceram na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e na Igreja Batista Itacuruçá (Tijuca, no Rio de Janeiro), que Ana Arcanjo freqüentava, informam ter ela falecido no início de 2009 naquela cidade. Trata-se de Ana Arcanjo Baraçal, que, com 12 anos de idade, foi enfermeira durante a Revolução de 1932, sendo homenageada pela Associação dos Combatentes de Santos em 9/7/2008 e citada em notícia do Diário Metropolitano.
O primeiro registro audiovisual conhecido de uma introdução oficiosa ao Hino Nacional foi feito com Ana Arcanjo num vídeo produzido em Resende, no Rio de Janeiro. Registre-se que a primeira postagem conhecida desse vídeo no YouTube ocorreu em 7 de setembro de 2007, pelo internauta com o pseudônimo "persioalas" (>>veja<<). A polêmica via Internet só se acendeu dois anos depois, em 2009.
É uma questão para os historiadores pesquisarem melhor. A melhor explicação, até agora, é de que essa introdução foi criada por Américo de Moura Marcondes de Andrade (natural de Pindamonhangaba/SP), que foi presidente das províncias do Rio Grande do Sul (de 12/3/1878 a 26/1/1879) e Rio de Janeiro (de 5/3/1879 a 20/4/1880), não tendo sido incluída por Joaquim Osório na letra por ele apresentada.
Como o hino passou 78 anos sem letra oficial, podem ter sido criadas outras versões hoje desconhecidas, como essa. Consta que em 1831 o hino era cantado com estrofes comemorativas da abdicação de d. Pedro I. Mais tarde, recebeu nova letra popular, comemorando a coroação de D. Pedro II. Ambos os textos estão desaparecidos.
Em 1889, a letra criada por Leopoldo Miguez ("Liberdade! Abre as asas sobre nós!..."), vencedora do concurso instituído pelo governo republicano para escolha do Hino Nacional, foi hostilizada pelo público, e o presidente Deodoro da Fonseca decidiu então oficializá-la como o Hino da Proclamação da República, enquanto o Hino Nacional continuaria só com a música de Francisco Manuel da Silva.
Novo concurso para a escolha do hino foi iniciado em 1906, resultando na letra atual, que só foi oficializada em 1922, durante as comemorações do centenário da Independência. Nova oficialização ocorreu pela lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971, publicada no dia seguinte no suplemento do Diário Oficial da União.
Portanto, não houve supressão de parte da letra do Hino Nacional, como se debateu em 2009, e sim a oficialização de uma letra criada em 1909, em contraposição a pelo menos outras três letras populares, de diferentes épocas, que ou foram substituídas e esquecidas, ou deixaram de ser cantadas a partir da oficialização do hino em 1922. 
O arquivo com Ana Arcanjo chegou a Novo Milênio em 7 de outubro de 2009, enviado pelo internauta Mário Leitão, da capital paulista, que também reproduziu mensagens por ele recebidas, relativas à sua origem:
Clique na imagem para obter o vídeo em formato WMVArquivo editado por J.A. Vídeo Produções, de Resende-RJ. Clique numa das imagens ou >>aqui<< para obter o arquivo, do tipo Windows Movie Maker (.wmv) com 4'09", totalizando 9,18 MB, a 288 kbps, em tela 320 x 240 pixels.
Clique na imagem para obter o vídeo em formato WMV
Espera o Brasil
Que todos cumprais
Com o vosso dever.

Eia avante, brasileiros,
Sempre avante!
Gravai com buril
Nos pátrios anais
Do vosso poder.

Eia avante, brasileiros,
Sempre avante!
Servi o Brasil,
Sem esmorecer.
Com ânimo audaz,
Cumpri o dever,
Na guerra e na paz,
À sombra da lei.


À brisa gentil
O lábaro erguei
Do belo Brasil.


Eia sus,
Oh!
Sus!
From: Mario Leitão <marinho.leitao@gmail.com>
Date: 2009/10/07
Subject: Fwd: FW: Vocês sabiam que a introdução do Hino Nacional tem letra????

Aí está. Este assunto podemos considerar como inédito.
Fiz questão de manter o depoimento do Sargento de 1972. Hoje aposentado como oficial da Aeronáutica.
De minha parte, confesso que nunca ouvi alguém cantar a introdução. Tampouco li a letra em algum lugar, e creiam que comecei a aprender o Hino Nacional ainda no 1º ano primário em 1949. Estudei, Cantei, Ouvi durante meus tempos de estudante. Pacientemente tive que assistir mais aulas sobre o assunto quando estive no Exercito em 1961. Para completar tenho o disco completo, cantado ou só orquestrado em minha discoteca.
Portanto, nem nas escolas, na Aeronáutica e tampouco no Exército ouvi algo a respeito.
E posso lhe garantir que na Marinha também, pois recentemente gravei varias faixas de hinos e dobrados executados pela Banda Sinfônica dos Fuzileiros Navais.
Achei interessante alguns termos inéditos dos quais também jamais ouvi falar.

Apreciem


---------- Forwarded message ----------
From: Aureo Santos <santoaureo@ibest.com.br>

Date: 2009/9/30
Subject: Fwd: FW: Vocês sabiam que a introdução do Hino Nacional tem letra????
To:

Este email foi-me mandado por um sobrinho. Formei-me em 1970 como sargento da Força Aérea Brasileira. Em 1972, recebi de um amigo gaúcho esta letra da introdução de nosso hino nacional, junto com a letra do hino na ordem direta, ou seja - As margens plácidas do Ipiranga ouviram o grito... e vai por aí afora. Em várias escolas, em prova, foi perguntado o sujeito da frase na ordem direta como se canta, e, muitos e muitos alunos erravam.
Todos esses anos, para várias pessoas, mesmo dentro da caserna, eu afirmava que existia a letra da introdução do hino nacional, mas não tinha como provar, pois havia perdido o papel que tinha recebido. Agora, depois de mais de 30 anos passados, vejo que reaparece essa introdução e esse interesse por nosso hino nacional, pois já recebi quatro email sobre o mesmo assunto. Fico contente por saber que esse email vai passar para várias pessoas e quem sabe, conseguiremos resgatar um pouco desta cidadania perdida. Parabéns Brasileiros de Coração.

um pouco de cultura nunca é demais....alguém sabia dessa parte do hino? duvido....rsrs
Ricardo Alves


From: cassiovv@hotmail.com
Subject: Vocês sabiam que a introdução do Hino Nacional tem letra????
Date: Tue, 29 Sep 2009 11:30:05 -0300

Pequena lição de MORAL E CIVISMO, se é que alguém ainda sabe o que é isso ...
São esses valores que estão em falta nesse povão desse País imenso .
Bate-se muito no peito pra dizer que é brasileiro, mas na hora de fazer a coisas certas, como de fato devem ser feitas, ninguém faz nada se não levar uma vantagenzinha ou algum. O tal do jeitinho brasileiro que quer sempre levar vantagem, mesmo sabendo que na maioria das vezes não tá levando vantagem nenhuma e muitas vezes tá é fazendo besteiras e bobagens. E não pensem que é exclusividade de quem não tem estudo, pois já presenciei muito cidadão estudado fazendo e falando bobagens e besteiras.
Falta-nos o verdadeiro nacionalismo e amor à Pátria.

Cassio
Sobre o assunto, o semanário santista Jornal da Orla publicou em 6 de setembro de 2009 (versão eletrônica) e três dias depois na versão impressa:
06/09/2009
Cultura
Quem é que entende o Hino Nacional?
Vitor Gomes
Sério e com postura ereta, o pequeno Felipe Delfino coloca sua mão direita sobre o lado esquerdo do peito, em um ato de respeito. Rodeado por seus colegas do 2° ano da Unidade Municipal de Ensino Edmea Ladevig, o garoto de sete anos canta com muito vigor o Hino Nacional, na Praça das Bandeiras, no Gonzaga. 
Em um coro de vozes infantis, a música segue com fluência, até a garotada lançar o trecho "Brasil, um sonho intenso, um raio vívido". Neste momento a canção perde toda sua força, mas os lábios do pequeno menino apenas balbuciam, enquanto seus colegas cantarolam a melodia da frase sem formar nem mesmo uma palavra.
"Fulguras, garrida, lábaro, florão... o que significam?" É o que pensa o garotinho enquanto canta. Como a criança ainda está passando pelo processo de alfabetização, é compreensível que ele não conheça todas as palavras de uma música, ainda mais uma canção complexa como o Hino Nacional. Além das palavras pouco usuais, o hino brasileiro é rico em metáforas e seu estilo parnasiano contribui para que muita gente grande tenha dificuldade em compreender e interpretar corretamente a letra, embora esteja claro que se trata de uma grande exaltação à "pátria amada". 

De acordo com o professor de Português do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, Luciano Martins, a forma do poema é rigorosamente parnasiana, porém o seu conteúdo é romântico, inserindo-se nas propostas dessa escola literária quanto à exaltação ufanista. "Os textos parnasianos privilegiam a beleza da forma textual. Isto justifica as palavras rebuscadas e o fato de as frases serem montadas de modo indireto, fazendo com que a clareza do texto fique comprometida, o que, para muita gente, causa dificuldades de compreensão", explica o professor.

A música - A melodia e a harmonia da composição também são muito complexas. Segundo o maestro regente titular da Orquestra Sinfônica Municipal de Santos, Luis Gustavo Petri, a parte musical do Hino foi composta dentro do melhor estilo do Classicismo, em 1831, pelo compositor Francisco Manuel da Silva. Quase um século depois, em 1909, a obra recebeu a letra de Joaquim Osório Duque Estrada, e por isso a melodia foi simplificada.
Mas, além da alteração melódica, a canção também recebeu nova tonalidade. "Quando era apenas instrumental, o Hino era executado no tom de Si bemol. Logo que recebeu a letra, foi transposto para Fá. Com a simplificação e a transposição da tonalidade, a melodia do Hino, embora ainda seja bastante sofisticada, ficou mais acessível e confortável para a maioria das pessoas. Caso estas alterações não ocorressem, apenas um cantor lírico conseguiria cantar o Hino na versão instrumental", ressalta.

Curso de Hinos - Uma das preocupações da professora da U.M.E. Edmea Ladevig, Ana Maria Pinho, é de que os seus alunos conheçam bem o Hino. Para isso, no ano que vem, ela levará as crianças ao Museu de Arte Sacra de Santos para participarem do curso de hinos. Este curso é voltado para crianças de escolas da região e é aberto e gratuito também para grupos de adultos interessados em conhecer melhor o significado e a história da canção.

As aulas são divertidas e, nelas, o silêncio é proibido. "Aqui, as crianças não têm tempo para bocejar. Eu falo uma estrofe do hino e pergunto: cadê o coro? Empolgados, eles repetem e logo explico o significado do trecho", diz a musicista e professora do curso, Anete Fernandes.
Segundo a professora, a única desculpa que uma pessoa pode dar para não saber cantar o Hino é a preguiça: "Muitos chegam aqui e cantam 'de um povo louco e brado retumbante', ou então 'entre os Brasil és tu Brasil'... Agora entender o Hino já é outra questão".

Terça-feira, dia 4, foi a vez dos alunos do 6° ano da U.M.E. Mário Almeida de Alcântara, de Santos. Em um pequeno auditório, as crianças se divertiram no curso. "Este projeto é muito interessante. Os alunos aprendem de forma lúdica e atrativa o significado e a história do Hino Nacional. Por ser em um lugar tão belo e de grande importância histórica para a cidade, tenho certeza de que nunca se esquecerão desta aula", acredita a professora de língua portuguesa da turma, Rita de Cássia Morais.

Todos os alunos que concluírem o curso receberão um livro infantil que explica e contextualiza o Hino Nacional (Juca Brasileiro e o Hino Nacional, de Patrícia Secco, patrocinado pela Cosipa e Usiminas). Os interessados pelo projeto deverão entrar em contato com Museu de Arte Sacra pelo telefone (13) 3219-2898www.museuartesacrasantos.com.br.

Introdução desconhecida - A parte instrumental que introduz a letra do hino também era cantada. Porém, de acordo com o professor de língua portuguesa e literatura Márcio Fragoso, este trecho de autoria do então presidente da província do Rio de Janeiro, nos anos de 1879 e 1880,  Américo de Moura, não foi incluída na versão oficial do hino. "É notável a diferença entre os estilos dos dois textos. Esta parte, ao contrário do resto do hino, é mais fácil de entender, pois as frases foram montadas na ordem direta", explica.

A musicista Anete Fernandes diz que é importante que o hino tenha uma introdução instrumental: "É importante para que as pessoas, ao iniciarem o hino, reconheçam a nota que deverão entrar. Se o início desta música fosse letrado com o texto de Américo Moura, além de todos começarem a cantar no susto, a desafinação seria total. Cada um entraria em uma nota diferente, seria um desastre. E para evitar essa confusão, só criando uma introdução".
Espera o Brasil
Que todos cumprai
Com vosso dever
Eia avante, brasileiros,
sempre avante!

Gravai com buril (instrumento de gravação)
Os pátrios anais (registros históricos)
Do vosso poder
Eia avante, brasileiros,
sempre avante!

Servi o Brasil
Sem esmorecer
Com animo audaz
Cumpri o dever
Na guerra ou na paz
À sombra da lei,
À brisa gentil
O lábaro erguei
Do belo Brasil
Eia Sus, oh Sus - Sus: interjeição latina motivadora que significa "elevar", "avante", "em frente".

                                                                                                         

A compreensão complicada
Por Mauri Alexandrino

Suponha trazer Joaquim Osório Duque Estrada para os dias de hoje pretendendo que ele compreenda, de bate-pronto, a letra de uma canção de Arnaldo Antunes. É algo parecido com a perplexidade da maioria dos brasileiros. Duque Estrada usou palavras e versificações de seu tempo ao escrever os versos do Hino Nacional, em 1909 - embora, mesmo na ocasião, não tenha feito a menor questão para ser popular, mais interessado que estava em agradar os gabinetes que as ruas, segundo dizem. Disso resulta a polêmica de hoje em dia.
Não existe uma interpretação oficial daqueles versos cheios de palavras complicadas. Há centenas extra-oficiais. A encrenca vai desde o Arquivo Nacional até as Forças Armadas, passando pela Maçonaria, filólogos da Universidade de São Paulo e da Universidade de Brasília, semiólogos de institutos de variados calibres e curiosos em geral. É uma batalha que começa nos dicionários, passa por profundos estudos sobre poesia do século 19 e não chega a terminar.
O trecho em que o Hino diz "formoso céu, risonho e límpido", por exemplo, aparentemente não tão deixa dúvidas. Aparentemente. Uma pesquisa mais profunda indicará que a palavra "risonho", como foi empregada no verso, deve ser entendida como "repleto de promessas", e não como "alegre" ou "feliz", como normalmente se faz, e com a palavra "promessas" significando perspectivas. E "límpido", geralmente explicado como "sem nuvens", na verdade quer dizer "nítido". Ou seja, o autor falava de um belo céu, repleto de promessas nítidas de um futuro grandioso.
Mais complicado ainda é o famoso "Mas se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta". Uma corrente, que é a mais aceita, defende que o verso significa "se, em defesa da justiça, tiveres de ir à guerra, verás..." Mas outra corrente defende apaixonadamente que as palavras, de fato, significam "se levantas as armas da violência acima da justiça, verás..." Parece pouca coisa, mas com um pouco de atenção se pode perceber que os sentidos são opostos. A primeira fala do Brasil para outras nações, a segunda do povo para seu próprio governo.Se o Hino fosse um manifesto, ele seria mais ou menos assim:
O Brasil agora é independente como resultado da luta dos brasileiros que equipararam sua terra às outras nações da Terra. Somos um povo livre e confiante, que ama seu país. Não hesitaremos em defender a liberdade conquistada, mesmo à custa de nossas vidas. Viemos para ficar.
Desde agora e para sempre, nosso maior desejo é que haja apenas amor e esperança em nossa terra, essa mãe generosa, e que sejamos, desse modo, uma inspiração para todos os povos.
Este é um país que nasceu grande e está destinado a um futuro brilhante, que será construído por nosso povo destemido com o exemplo de nosso passado glorioso.
Também a beleza do Brasil não deve nada a outros países da América, ao contrário, é ainda mais belo.
Queremos que esta seja a pátria do amor e da paz, mas se formos levados à guerra em defesa do que é justo, não fugiremos à luta nem temeremos a morte, porque, entre as coisas que mais prezamos, está o nosso profundo amor pelo Brasil.
Hino Nacional
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.


Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!


Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
 

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.
 

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.
 

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

Parte II

Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
 
Do que a terra, mais garrida,
 

Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores."
 

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
 

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
- "Paz no futuro e glória no passado."
 

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
 

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

"TRADUÇÃO"

As margens tranqüilas do rio Ipiranga ouviram o grito forte de um povo heróico
e o sol da independência brilhou no céu da Pátria, em raios faiscantes, naquele momento.

Se, com nossa firmeza, conseguimos conquistar o direito à igualdade com outras nações, agora que somos livres nosso coração desafia a própria morte.
Ó pátria amada,
adorada,
salve!

Enquanto a imagem da constelação do Cruzeiro do Sul brilhar em teu céu belo e repleto de promessas nítidas, o sonho de amor e de esperança existirá na terra.
És grandioso desde que nascestes, és belo, és forte, um gigante destemido, e teu futuro refletirá essa grandeza.
Terra adorada,
entre outras mil
és tu, Brasil,
ó pátria amada,
a mãe generosa dos filhos desse solo.
Pátria amada Brasil.

Parte II
Ocupando para sempre este lugar magnífico, ao som do mar e à luz do céu de azul intenso, tu brilhas, Brasil, beleza da América, iluminado ao sol do Novo Mundo.
Teus agradáveis e lindos campos têm mais flores do que a terra mais vistosa. "Nossos bosques têm mais vida" e "nossa vida mais amores" vivendo aqui.
(as partes em aspas são da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias)
Ó pátria amada, adorada, salve!
Brasil, que a bandeira estrelada que exibes seja símbolo de nosso amor eterno, e que o verde e o amarelo signifiquem paz no futuro e glória no passado.
Mas se, em defesa da justiça, tiveres de ir à guerra, verás que um filho teu não foge à luta, nem teme a própria morte quem te adora.
Terra adorada,
entre outras mil,
és tu, Brasil,
ó pátria amada,
a mãe generosa dos filhos deste solo.
Pátria amada Brasil.

domingo, 18 de março de 2018

Novas Inquisições (Mario Vargas Llosa)








Novas inquisições

Os que querem que a literatura seja inofensiva querem tornar a vida impossível de ser vivida














Mario Vargas Llosa*, O Estado de S.Paulo
18 Março 2018 | 05h00
Tento ser otimista, lembrando diariamente, como sugeria Popper, que, apesar de o mundo estar tão mal, a humanidade nunca esteve tão bem como hoje. Mas confesso, esse otimismo a cada dia fica mais difícil. Se fosse um dissidente russo e crítico de Putin, morreria de medo de entrar em um restaurante ou em uma sorveteria e ingerir o veneno que ali estaria a minha espera.  
Como peruano (e espanhol) o sobressalto não é menor com um presidente dos EUA como Donald Trump, irresponsável e terceiro-mundista que, a qualquer momento, pode desencadear com suas bravatas insanas uma guerra nuclear que extinguirá uma boa parte dos habitantes deste planeta. Mas o que mais me deixa desanimado ultimamente é a suspeita de que, da maneira que vão as coisas, não é impossível que a literatura, que melhor me tem defendido nesta vida contra o pessimismo, pode desaparecer.  
A literatura sempre teve inimigos. A religião, no passado, foi a mais determinada a liquidá-la, estabelecendo censuras severíssimas e acendendo fogueiras para queimar escritores e editores que desafiavam a moral e a ortodoxia. Depois, foram os sistemas totalitários, o comunismo e o fascismo, que mantiveram viva essa sinistra tradição. Mas também as democracias, por razões morais e legais, proibiram livros. Mas, neste caso, foi possível resistir, lutar nos tribunais e, pouco a pouco, aquela guerra foi sendo vencida – pelo menos era o que se acreditava –, convencendo juízes e governantes que, se um país deseja ter uma literatura (e, em última instância, uma cultura), realmente criativa e de alto nível, é preciso tolerar no campo das ideias e formas dissidências, dissonâncias e excessos de toda classe. 
Agora, o inimigo mais resoluto da literatura, que pretende expurgá-la do machismo, dos múltiplos preconceitos e imoralidades, é o feminismo. Não são todas as feministas, claro, mas as mais radicais, com o respaldo de amplos setores que, paralisados pelo temor de ser taxados de reacionários, conservadores e machistas chauvinistas, apoiam abertamente esta ofensiva antiliterária e anticultural. Por isso, quase ninguém se atreveu a protestar na Espanha contra o “decálogo feminista” de sindicalistas que pretende eliminar dos cursos nas escolas o estudo de autores tão machistas como Pablo Neruda, Javier Marías e Arturo Pérez-Reverte.  
As razões oferecidas são tão ingênuas e angelicais como os manifestos contra Vargas Vila assinados pelas mulheres dos anos 1900 pedindo a proibição dos seus “livros pornográficos”, e como a análise feita por Laura Freixas do livro Lolita, de Nabokov, explicando que o protagonista era um pedófilo incestuoso que violou uma menina e, o pior, era filha de sua mulher (ela se esqueceu de dizer que este também é um dos melhores romances do século 20). Ao adotar esse enfoque de uma obra literária, não há um romance da literatura ocidental livre de incineração. Santuário, por exemplo, em que o degenerado Popeye tira a virgindade da cândida Temple com uma espiga de milho, não deveria ter sido proibida e William Faulkner, seu autor, enviado a um calabouço?  
Lembro que a diretora da Jovem Guarda, editora russa que publicou em Moscou meu primeiro romance com 40 páginas cortadas, disse-me que, não tivessem sido suprimidas aquelas cenas, “os jovens casais russos sentiriam tanta vergonha depois de lê-las que não conseguiriam olhar um para o outro”. Quando lhe perguntei como podia saber isso, ela me tranquilizou, assegurando que todos os assessores culturais da editora eram doutores em literatura. 
Na França, a editora Gallimard havia anunciado a publicação em um volume dos ensaios de Louis Ferdinand Céline, que foi um colaborador ardente dos nazistas durante a ocupação e um antissemita enlouquecido. Jamais teria cumprimentado este personagem, mas confesso que li deslumbrado seus romances – Viagem ao Fim da Noite e Morte a Crédito – que, na minha opinião, são obras-primas, sem dúvida as melhores da literatura francesa depois das de Proust. Os protestos contra a ideia de se publicar os panfletos de Céline levaram a Gallimard a engavetar o projeto. 
Aqueles que querem julgar a literatura (e acho que isso vale para todas as artes) de um ponto de vista ideológico, religioso e moral, sempre encontrarão dificuldade. Ou aceitam que este exercício foi, está e estará sempre em conflito com o que é tolerável e desejável a partir daquelas perspectivas, e assim ele é submetido a censuras e controles que simplesmente acabarão com a literatura, ou se resignam a conceder a ela o direito à liberdade, que seria algo semelhante a abrir as jaulas dos zoológicos e deixar que as ruas se encham de animais e feras. 
Quem explicou bem isso foi Georges Bataille em vários ensaios, mas especialmente em um livro belo e inquietante: A literatura e o mal. Neste livro, influenciado por Freud, ele afirma que tudo aquilo que tem de ser reprimido para tornar a sociedade possível – os instintos destrutivos ou “o mal” – desaparece apenas na superfície da vida, sempre lutando para se exteriorizar e se reintegrar na existência. De que maneira? Por meio de um intermediário, que é a literatura. A literatura é o veículo pelo qual tudo aquilo que está entranhado, torcido e retorcido no ser humano volta à vida e nos permite compreendê-la de modo mais profundo e, de certa maneira, vivê-la em sua plenitude, recuperando tudo aquilo que tivemos de eliminar para a sociedade não ser um manicômio nem uma hecatombe permanente, como deve ter sido na pré-história quando o homem ainda estava em gestação. 
Graças a essa liberdade que desfrutou em determinados períodos e sociedades, nós temos a grande literatura, disse Bataille, e ela não é moral nem imoral, mas genuína, subversiva, incontrolável, ou então artificial e convencional, ou seja, morta. Aquele que acredita que a literatura pode ser tornada “decente”, submetendo-a a cânones para que ela respeite as convenções, está totalmente equivocado. O resultado seria uma literatura sem vida e sem mistério, presa a uma camisa de força, sem uma válvula de escape daquilo que existe de maldito dentro de nós e que encontrará outras maneiras de reintegrar-se à vida. E com que consequências?  
O surgimento desses infernos onde “o mal” se manifesta não nos livros, mas na própria vida, através de perseguições, barbáries políticas, religiosas e sociais. Portanto, graças aos incêndios e brutalidades dos livros, a vida é menos truculenta e terrível, mais tranquila, onde os humanos convivem com menos traumas e mais liberdade. Os que se empenham para que a literatura se torne inofensiva trabalham, na verdade, para tornar a vida impossível de ser vivida, tornar um território onde, segundo Bataille, os demônios acabarão exterminando os anjos. É o que queremos? /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 
*É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA
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